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terça-feira, 16 de setembro de 2014

Especial Crise Hídrica na Folha: como a nossa imprensa isenta o Governo de SP?

Especial Crise hídrica na Folha: como a Nossa Imprensa Isenta o Governo de SP?

O Especial da Folha Sobre a Crise hídrica - De Que Formas A Nossa Imprensa Isenta o Governo do Estado?
Sérgio Reis
Eu lamento pelo cidadão paulista, a cada dia mais perto de ficar sem água. Lamento pela inoperância do governo que atua em seu nome, incapaz de lidar com a crise hídrica. Lamento, mais ainda, pelos meios de comunicação colocados à disposição da cidadania, os quais não conseguem se livrar do partidarismo conservador doentio que conforma sua atuação nessa e em tantas outras questões. Lamento, enfim, pela Síndrome de Estocolmo que informa o comportamento político dos eleitores paulistas e paulistanos, às vésperas de concederem um novo mandato ao mesmo partido, para que ele se mantenha no poder por um quarto de século, após um legado tão negativamente expressivo.

É exatamente em virtude dessa permanência tão demorada à frente da gestão do Estado que se torna inatacável a responsabilidade plena de Geraldo Alckmin pela crise hídrica ora vigente. Mesmo quando tratamos de um evento que, evidentemente, é complexo – pois lida com fatores climáticos, elementos ambientais, investimentos em infraestrutura com elevada curva de maturidade, mudanças em práticas culturais intergeracionais com relação ao consumo da água – devemos admitir, para todos os efeitos, que mesmo ele está, sim, sob o domínio da gestão pública. Em outras palavras, as políticas de recursos hídricos, como quaisquer outras, estão, no limiar, sujeitas à intervenção humana, mesmo que tratemos de imprevistos, de catástrofes, do aquecimento global e de quaisquer variáveis supostamente independentes ou intervenientes.
Essa é a razão de ser da Administração Pública, projeto intelectual da modernidade: sujeitar aquilo que disser respeito à vida humana a uma lógica de planejamento, de reflexão sobre modos de intervenção na realidade para seu aperfeiçoamento, para a provisão de bem estar – ou, minimamente, para a garantia de sobrevivência da espécie, mesmo que alguns desafios sejam incrivelmente difíceis, a depender das condições orçamentárias ou administrativas. De outra forma, nos renderíamos à metafísica, e entregaríamos, por exemplo, o desafio hídrico a Deus, repetindo nossos antepassados mais distantes, como os sumérios (já que os egípcios buscaram, em seu tempo, implementar algumas estratégias ousadas, para nossos padrões paulistas, para o aproveitamento do Nilo durante as estiagens). Mas será que não é justamente isso, no limite, o que tem feito a gestão tucana? E os jornais, que criticam o clima por “não colaborar”?
Não há como não responsabilizar tal comportamento gerencial, que se aproxima da inimputabilidade, à nossa imprensa. Ela opera mediante um conjunto de tecnologias discursivas muito curiosas, com vistas à preservação política de seus representantes institucionais (no Palácio dos Bandeirantes):
1) inserem o problema na pauta do jornal com ênfase próxima à nulidade, nas últimas páginas do caderno regional;
2) desenvolvem matérias pouco relevantes, de pouco estofo, em geral a partir da mera atualização da queda de 0,1 ou 0,2% dos níveis dos reservatórios;
3) tratam do tema em editoriais, e não em reportagens (recordo-me de um artigo recente do Nassif nos mostrando que é muito mais fácil compreender a linha editorial de um jornal em suas matérias, que possuem muito mais repercussão dentre os eleitores, do que nos editoriais, que atendem a um público muito mais específico);
 4) nos editoriais, empregam uma abordagem de recomendação ou orientação, como um apoio ou alerta de alto nível (muito raramente utilizando linguagem pesada, irônica ou crítica, como ocorre, sabemos, quando políticas de outros governos estão em jogo);
 5) nas matérias, dão ênfase aos elementos aparentemente situados mais para fora da capacidade de intervenção governamental (a partir de termos, para o nosso caso, como “estiagem” ou “seca”). Essa mudança de ênfase é fundamental para retirar a governabilidade sobre a crise em si, o que significa, é claro, a desresponsabilização dos agentes governamentais;
 6) nas matérias, investem em textos que, na prática, escamoteiam os territórios centrais nos quais ocorre o problema (dando-se ênfase ao problema da escassez de água não na região metropolitana de São Paulo, onde se localiza metade da população do Estado, mas sim nas pequenas cidades não atendidas pela SABESP, nas quais, é claro, as dificuldades administrativas são muito maiores);
7) quando pretendem abordar “seriamente” a questão, buscam dar um caráter nacional a ela, como se fosse um problema generalizado, indistinguível em suas particularidades no contexto do Estado o qual devem tratar, particularmente: a crise hídrica se torna uma crise “brasileira” (uma responsabilidade federal, do PT, de Dilma, etc), e não daqui;
8) nesse esforço de esvaziamento de responsabilidades contido nessas matérias “sistêmicas”, sobra até muito mais para o próprio cidadão do que para o governo;
9) Por vezes, enfim, chegam até mesmo, nas matérias, a cometer erros básicos, propositais ou não, como a recuperação de manchetes antigas como forma de apresentar “respostas prontas” do governo à crise (quando são, na verdade, descontextualizadas), ou mesmo dados desatualizados sobre o tamanho do problema – no limite, redundando em lamentáveis contradições entre as matérias, às vezes em intervalos inferiores a uma semana (isso quando não utilizam fotos antigas para retratarem o cenário atual).
Cada uma dessas tecnologias discursivas já foi abordada nos meus artigos. Elas se repetem, são combinadas, recuperadas, passam por um processo de sofisticação, mas, enfim, permanecem basicamente essas, atendendo a um processo de blindagem político-ideológica altamente bem sucedido, capaz de transformar o maior estelionato eleitoral da história do Estado em um evento tão incólume à imagem do governador quanto grave à cidadania. Vale discorrer um pouco mais sobre o Especial apresentado pela Folha de São Paulo de hoje a respeito da Crise da Água, com grande repercussão na página inicial do principal portal de Internet do país (http://arte.folha.uol.com.br/ambiente/2014/09/15/crise-da-agua/gente-demais.html).
Primeiramente, já identificamos a excelente cortina de fumaça contida no título-justificativa para a crise hídrica na região metropolitana de São Paulo: “Gente demais”. A seguir, o texto destina longos parágrafos para atacar ocupações irregulares de mananciais, dando grande ênfase para uma, recente, do MTST, inserindo-a no contexto da administração municipal de Fernando Haddad – de forma com que o problema se torne “não-estadual”. Aqui, notamos uma interessante operacionalização do deslocamento de responsabilidades, sempre para fora do âmbito estadual: primeiro, destinando-a para o domínio municipal (o que constitui, ainda, uma boa oportunidade para atacar o PT); segundo, colocando a “culpa” em nós mesmos, cidadãos, e não na Administração Pública.
O pulo do gato, aqui, é que o “nós” não diz respeito à totalidade da população, mas sim ao “outro” da cidadania: quem faz ocupação irregular, quem, curiosamente, possui uma agenda relacionada ao direito de propriedade que não condiz com a linha editorial do jornal. É preciso ressaltar essa saliência importante porque “ocupação perigosa” para os mananciais, do ponto de vista da Folha, não é a das mansões e resorts situados em Bragança Paulista, nas beiras do – agora seco – reservatório Jaguari/Jacareí, mas sim o dos pobres e vândalos que moram na Billings e no Guarapiranga – “sequestradores de propriedades”. É evidente que as habitações em regiões de mananciais são problemáticas para a produção de água. A forma com que a Foha coloca a questão, contudo, nos mostra as maneiras com que desloca, para fora de Alckmin, a responsabilidade sobre a crise. Curiosamente, por exemplo, nada é falado sobre a legislação gestada e sancionada durante outro momento da administração do atual governador (2001-2), na qual ocorreu a anistia de mais de 1,6 milhão de habitantes dessas zonas, que deveriam estar protegidas.
Ou seja, também o tópico da preservação ambiental não só consta do rol de responsabilidades compartilhadas pela administração estadual, como ela também é responsável, historicamente, pelas ocupações irregulares, sejam elas de quais classes sociais forem. Isso, é claro, não foi abordado pelo grande “especial” da Folha. No limite, a manchete que nos fala que há “gente demais” e o conteúdo da matéria que ataca um certo conjunto de ocupações irregulares nos dá indícios para uma bizarra conclusão: o governo do Estado não tem culpa por não dar conta de não conseguir aumentar a produção de água. Há pessoas demais morando na região/no ente da Federação. Trata-se de uma situação ingerenciável, na opinião do jornal (sendo que o crescimento vegetativo do Estado já é menor do que a média nacional há duas décadas, o mesmo período sob a égide tucana). O que será que a Folha está querendo sugerir, subliminarmente? Mandar de volta os imigrantes (para preservar a capacidade gerencial do PSDB)? É até esse ponto que chega a ânsia de proteção da imprensa aos seus?
Também é possível observar outros dois registros válidos dessa tecnologia discursiva de transferência de responsabilidades contida nesse especial da Folha: o primeiro, a partir da cobertura “nacional” da questão da água, busca mostrar que metade dos municípios do Brasil também precisa aumentar a sua produção de água, ao mesmo tempo em que quer indicar que as perdas de água que ocorrem em São Paulo são referência para todo o país. O fato de, p.ex., o Ceará precisar aumentar sua disponibilidade hídrica não reduz em nada a imperiosidade de que o Estado de São Paulo também o faça – e, diante de sua favorável condição orçamentária, é vergonhoso que não tenha tido obtido sucesso nisso. Segundo, a partir da abordagem da questão a partir de um olha macroclimático, faz com que o problema atual represente um conjunto de forças ambientais incrivelmente poderosas e incontrastáveis, i.e., para fora dos domínios do Estado.
Essa lógica é incrível porque ela colide com a própria prática de escamoteamento da crise hídrica operada pelo jornal. Tratada como fenômeno de terceira relevância desde Janeiro, agora aparece inserida como símbolo maior do aquecimento global. Nesse sentido, o fato de termos vazões médias de entrada de água abaixo da média desde Julho de 2012 não se torna um argumento para notarmos a falta de tempestividade do governo tucano para buscar alternativas para enfrentar a seca, mas sim o quanto o governo está sendo “bravo” em conseguir evitar o racionamento de água em meio a uma estiagem tão aguda e prolongada. Uma falha grave de capacidade de diagnóstico é transformada em heroísmo gerencial. Não conseguimos sequer notar uma mudança de ênfase entre o modo com que o jornal nos conta a história e os releases da assessoria de imprensa da SABESP.
De fato, um dos auges desse “chapa-branquismo” se situa na abordagem a respeito do desperdício de água, que chega ao cúmulo – pela falta de citação à empresa pública em questão – de fazer com que acreditemos que se trate de uma culpa do cidadão, dado o próprio uso do termo “desperdício”, sempre associado, no léxico jornalístico, ao consumo, e não à produção (relacionada ao termo “perdas”). O grande gargalo de gestão, que é o fato de a SABESP perder um terço de toda a água que produz (os 24,4% citados pela Folha são dados da própria SABESP, e não são acurados porque dizem respeito apenas ao volume que seria faturado – cobrado do cidadão na conta – , e não a perda total propriamente dita, que seria a perda real, e que é o indicador utilizado internacionalmente), se torna uma “responsabilidade compartilhada” com o cidadão.
Não por acaso, a Folha assume como um dado o fato de o racionamento estourar os encanamentos, como se tal fenômeno ocorresse de forma “supra-histórica”. Com efeito, é espantosa a entrevista feita, também no contexto desse Especial que estamos abordando, com o especialista Peter Gleick (http://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2014/09/1515983-existe-alternativa-para-petroleo-nao-para-agua-alerta-peter-gleick.shtml). Duas perguntas feitas ao entrevistado merecem reprodução: 1) São Paulo vive a pior crise de água em 80 anos. Pode-se exigir de qualquer governo que esteja preparado para uma crise sem precedentes?; 2) [Gleick: É difícil cortar a água das pessoas] Folha: E complicado, pois a rede pode ser danificada com a mudança de pressão. É bastante interessante percebermos como o discurso da escassez de chuvas entre como uma defesa ao governo Alckmin contida na própria pergunta (Você consegue imaginar essa sensibilidade para a questão energética, de competência federal? Não preciso trazer exemplos em sentido contrário, correto?). A segunda não é nem uma pergunta, mas um comentário-defesa, corroborando o que dizia acima. Nada sobre o fato de termos 51% de encanamentos com mais de 30 anos, quase o dobro do observado, de acordo com a própria SABESP, em 1997 (apresentei esses dados neste artigo: http://jornalggn.com.br/blog/sergiorgreis/historia-recente-da-gestao-do-abastecimento-de-agua-em-sao-paulo-por-sergio-reis).
Seria possível apontar, ainda, vários outros exemplos de emprego dessas tecnologias discursivas de tergiversação e de inimputabilização a respeito das responsabilidades envolvidas na atual crise hídrica e na eventual falha em sua superação. Quando tantos e tantos dados nos colocam, com obviedade, que é o Governo do Estado de São Paulo o autor central com relação a essa questão, todo um arcabouço de interpretações – que ora buscam culpar a natureza, ora parte da própria população como a responsável pela tragédia –  é colocado à disposição do leitor. O Especial poderia ser uma grande oportunidade, efetivamente, para que realmente refletíssemos sobre como superar esse problema tão grave, tão complexo, tão da ordem do dia, e que vai afetar tão dramaticamente a vida de milhões de pessoas. Lamentavelmente, contudo, boa parte dele nada mais foi do que um panfleto de sobrevivência política, um disclaimer sobre a imponderabilidade governamental para lidar com a crise. Ele nos mostra, enfim, que os veículos de comunicação hegemônicos de São Paulo – a Folha, pelo menos – não irão abandonar o barco do PSDB: manter-se-ão firmes e alinhados ao tucanato, favorito a mais uma reeleição, mesmo que isso custe a negação, em poucos meses, a um dos direitos mais básicos que as pessoas deveriam ter – e o referendo, portanto, a um abominável estelionato eleitoral.

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